PRETO NÃO VAI NA CABINE
Na minha memória, vejo as fortes gotas de chuva levantarem pó naquela terra vermelha abrasadora, sinto nas narinas o aroma a terra molhada e oiço ainda as fortes trovoadas e relâmpagos que rabiscavam o céu, como se fosse um menino a rabiscar traços indistintos naquela abóbada escura e imensa que metia medo. Como havia começado, também de repente se dissipava e voltava aquele sol quente que nós garotos aproveitávamos, tirando o nosso calção azul de caqui e tomando banho naqueles charcos maiores, dos muitos que havia por ali.
Mas ao lembrar-me destas coisas, também me veio à mente aquela pergunta que fiz ao meu pai quando visitei pela primeira vez a “grande” cidade e que ele ao fim de muitos rodeios, rematou com esta resposta:
- Lindinho, um dia quando você fores grande, então tu vais entender.
Íamos os dois na parte de trás do jeep do senhor Chefe de Posto que era apenas de três lugares. Como era habitual na época das chuvas, de repente, o sol escondeu-se e logo a seguir começaram a cair as tais gotas grossas de chuva que em breve se tornaram num forte aguaceiro, fazendo correr a água pelos regatos à beira da estrada.
O meu pai tirou o seu capacete “tipo colonial” e colocou-o na minha cabeça, ao mesmo tempo que se inclinava sobre mim, na vã tentativa de me proteger da chuva, enquanto ele com a sua mão teimava em sacudir a água que lhe escorria pelo queixo.
Olhava desalentado para mim todo encharcado!
Tinhamos saído de manhã bem cedo e ansiava chegar a casa para os meus colegas verem a minha roupa nova e agora...
- Pai, porque não vamos lá para dentro? - e apontava para a cabine do jeep.
- Não pode, nosso lugar é aqui. – respondeu o meu pai.
- Mas porquê pai, lá cabe nós dois, só tem o senhor Chefe.
- Chuva não mata. - Voltou ele a responder
- Mas porquê pai?
O meu pai olhou para mim, passou-me a mão pela cara tentando limpá-la da chuva e olhando para longe, respondeu devagar:
- Quando você fores grande, tu vais entender.
Fiquei um pouco desconcertado com a resposta do meu pai, pois continuava sem entender porque íamos ali todos molhados, quando havia lugar para nós na cabine do jeep.
Bem, o meu pai tinha razão e não precisei de muitos anos para realmente entender o que lhe custava tanto a dizer.
Entender, eu entendi, mas sinceramente não gostei!
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