Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

EXTRACTO DO LIVRO "DA SANZALA A DIPLOMATA"


A MUDANÇA


Poderia passar milhares de vezes pelo homem que acabava de entrar no meu gabinete que jamais reconheceria nele o personagem que muitos anos atrás me sovou, apenas porque não quis engraxar-lhe os sapatos de “borla”.
Alto, meio encurvado, cabelo completamente branco, velho, sim muito velho para os seus cinquenta e oito ou cinquenta e nove anos.
Quando se sentou de frente para mim do outro lado da secretária, notei também que o rosto apresentava rugas profundas, dando-lhe também esse ar de mais idade do que na verdade tinha.
Como o esperava, sabia como devia de agir e assim jeitosamente pu-lo a falar de Angola, aliás a razão da sua visita ali.
Com voz pausada e agradável notei que vivia cada palavra que pronunciava, como se isso fosse a única razão que o impelia a viver.
Estava só na vida já alguns anos; falou durante quase meia hora e, embora tivesse uma agenda apertadíssima, esqueci tudo e bebia também cada palavra que saía daqueles lábios.
Olhava para mim, mas nem por um segundo pensou ou reconheceu aquele que tinha agredido um dia. Admitiu erros do passado, erros que todos haviam cometido; como seria diferente se naquele tempo todos pudessem ter o pensamento e a maneira de pensar de agora! Teria sido uma Angola linda, uma Angola multirracial e multicultural, mas digam o que disserem, - dizia ele, - naquele tempo, só porque alguém nascera “diferente”, já podia tratar os outros como se fossem escravos. Mas agora o povo “retornado”também era diferente dos outros, porquê? Não foi apenas a terra em si que os moldou, mas quer admitissem quer não, também eles aprenderam muito com os “angolanos”.
Convenci-me da sua sinceridade quando ele citou um exemplo disso: “
- Vi mais de uma vez, não importa se fosse homem, mulher ou criança, comprarem um papo-seco (carcaça) e depois dividiam-no por quem estivesse presente, sobrando na maioria das vezes apenas uma mastiga que metiam à boca duma só vez”.
- Ainda se lembra disso? – perguntei só para dizer alguma coisa.
- Contra mim falo, - continuava ele, - tarde demais nos apercebemos do bem que tínhamos e do povo amistoso e afável com quem convivíamos.
Será que me tinha reconhecido? – interroguei-me mentalmente  quando o ouvi falar assim.
Mas não! A verdade é que este homem tinha mudado, já não era o mesmo de quem guardava tão má memória.
As mudanças da vida, as dificuldades sentidas e por vezes também a idade ajudam-nos a mudar e ele tinha mudado.
 Olhei para ele, sorri com alguma nostalgia, rabisquei o documento que estava em cima da secretária e apenas disse:
- Aqui tem senhor João, faça boa viagem.
- Muito obrigado senhor..... – e saiu da mesma forma que havia entrado!

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

SE EU VOLTASSE (do livro de "Poemas do Quirimbo70")

SE EU VOLTASSE

Creio, que se um dia voltasse
Á terra que me viu crescer
Por mais que eu procurasse
Meus olhos não podiam ver

Em cada casa eu procurava
Um amigo, um rosto conhecido
A cada passo eu recordava
Aqueles com quem tinha vivido

Caminharia pelas ruas
Vendo as casas desbotadas
Olhando as paredes nuas
Há muito sem serem pintadas

Fortes dores ia sentir
Ao percorrer a mesma terra
Donde tivemos que fugir
Quando começou a guerra

Sei que não encontraria
Aquelas minhas amizades
Penso que só sofreria
E não matava as saudades.

Domingo, 7 de Agosto de 2011

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIDA" (A EDITAR)

SOLIDÃO

Solidão é estar sozinho
Mas também acompanhado
É viver sem  carinho
E sentir-se abandonado.
Sente-se o peso dos dias
Não se pensa no futuro
Vive-se sem alegrias
Tudo à volta é escuro.
É não ver nenhum caminho
Por onde se possa fugir
E então chora-se baixinho
Por não saber para onde ir.
Solidão é estar sozinho
E ter tanto para dar
Viver sem qualquer miminho
Não ter ninguém para amar.
É estar numa encruzilhada
Sem nenhum rumo a tomar
É acordar de madrugada
E sem motivo chorar!

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

DO LIVRO "RETALHOS DE UMA VIDA"

APRENDEMOS COM OS FILHOS


Normalmente são os filhos que aprendem com os pais e cabe a estes tornarem-se bons exemplos para que os filhos os possam copiar e assim tornarem-se adultos responsáveis e úteis à sociedade. No entanto se os pais estiverem atentos, também eles podem aprender com os filhos, mesmo que estes sejam ainda bem jovens, como foi o meu caso.
Devido às vicissitudes da vida, confesso que em determinado período da mesma, tinha umas certas “reticências” para com pessoas de outras origens, ou outra cor da pele. Se estava errado, claro que estava, e o meu primeiro mestre foi nada mais nada menos que uma criança de cinco anos, precisamente o meu filho mais velho.
Estava num país estrangeiro e o meu filho frequentava um jardim infantil. Era comum em casa falar frequentemente de uma sua amiguinha, pelo que parecia, companheira inseparável das suas brincadeiras durante o tempo que passava naquele estabelecimento.
Como sempre acontece nestes casos, fazemos uma ideia mental da rapariguinha que acompanhava o nosso filho durante o dia.
Numa das poucas vezes que fui levá-lo, soltou-se da minha mão e correu ao encontro de uma menininha que o recebeu de braços abertos. Fiquei a olhar para a cena, enquanto me interrogava se seria esta a tal amiguinha das brincadeiras.
Também numa das poucas vezes que cheguei a casa mais cedo, isto é, antes dele já estar a dormir, acerquei-me dele e perguntei-lhe se a sua amiguinha era negra ou branca. Acreditem que a sua resposta foi motivo de muita reflexão para mim durante os próximos dias. Ele respondeu:
- Não sei pai, nunca reparei!

Sábado, 4 de Junho de 2011

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIDA" (A EDITAR)

A PEDINTE

Estava sentada no chão,
Com a criança pela mão,
Estendendo a mão à caridade.
Dê-me só uma ajudinha,
Para esta criancinha,
Pela sua felicidade!
Mas ninguém a ouvia,
Ninguém se compadecia,
Enquanto a criança chorava.
Tanta gente que passou,
Mas ninguém se importou,
Enquanto a mãe a embalava.
Negaram-lhe água no café,
Dirigiu-se para a Sé,
Porque ela não se calava.
Ninguém lhe deu um tostão,
Para poder comprar um pão,
Do outro lado da estrada.
Deve ser uma cigana
Ou então Ucraniana!
Que trabalhe. Alguém gritava.
 A mulher baixava o rosto,
Expressando o seu desgosto,
Nas lágrimas que brotava.
Assim esteve até findar o dia,
Sempre naquela agonia,
Quando tão pouco bastava.
Quando há muito não se come,
Já não se sente a fome,
Foi-se o pouco que restava.
Sem saber o que fazer,
Vendo o filho a sofrer,
Um pensamento a assaltava.
Dizem que foi uma loucura,
Daquela mãe de pele escura,
Que por ali andava.
Tinha-se suicidado,
Depois do filho matado,
O filho que tanto amava.

Domingo, 15 de Maio de 2011

POEMA DO LIVRO "UM DIA UMA VIDA" (a editar)

O RETORNO

Chamam-lhe a lei natural da vida,
Mas como eu gostaria de a percorrer do modo inverso...
Começar  por quebrar as tábuas do meu caixão,
Sair do ventre da terra humida e contemplar de novo a luz.
Olhar para as muitas flores colocadas sobre aquele pedaço de terra
E poder ler as muitas dedicatórias de verdadeiros amigos,
Ou simplesmente de pessoas que me acompanharam na última caminhada,
Uns por um sentido de obrigação, enquanto outros apenas por hipocrisia.
Olharia para as flores e deter-me-ia naquelas que fossem naturais,
Naquelas cheias devida embora já cortadas da sua raiz.
Sem a minha bengala, companheira inseparável dos últimos anos,
Caminharia trôpego de volta ao lar onde passei os meus últimos dez anos.
Sei que teria mais paciencia e ouviria com mais atenção todos os que me visitassem
E apreciaria todos os gestos e carinho de todos os que me tratassem.
De volta à casa onde vivi décadas com a minha família,
Sei que iria encontrar a companheira inseparável da minha vida,
Também ela, assim como eu, fazendo o caminho inverso da vida.
Viveria com mais intensidade,
Mas não me perderia nas coisas fúteis da vida
E apreciaria cada pormenor da natureza,
Olhando com atenção e admiração tudo aquilo que Deus nos deu
E nós tratamos com tanto desdém!
Haveria de sorrir para todos aqueles com quem me cruzasse
E jamais permitiria que qualquer desacordo se tornasse em inimizade.
Teria mais tempo para os filhos,
E ouvi-los-ia mesmo que as suas conversas fossem sem nexo e sem sentido.
Ouviria com atenção os conselhos dos meus pais e segui-los-ia,
Não pensando que apenas porque estudei mais do que eles isso me tornou mais sábio.
Usufruiria a vida como se fosse o último dia
E olharia com mais atenção não só as coisas grandes, mas também as pequeninas;
Tanta beleza que pisei ao londo da vida e nunca me dei por isso.
Apreciaria cada minuto da minha vida de criança
E prolongaria ao máximo os momentos daquela pura desprocupação e liberdade.
Eternizaria o tempo em que agarrado à mama da minha mãe conseguia sentir todo o seu amor através daqueles olhos tão doces,
E mesmo de olhos fechados descreveria na perfeição as suas lindas feições.
Teria mais empatia pelo seu sofrimento quando me deu à luz,
E seria finalmente  motivo de júbilo para mim, poder regressar àquele ventre,
Longe de tudo e de todos,
Sentindo apenas aquele pulsar forte que me embalava e me fazia sentir seguro.
Por fim acabaria em algo tão pequeno que alguns teimam em não chamar de vida,
Essa vida que nasceu da junção de dois seres que se amaram
E contribuiram para que  um dia eu existisse!

Domingo, 3 de Abril de 2011

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIDA" (A EDITAR)

DEPRESSÃO

Apesar de tanto carinho
Perdi-me pelo caminho
Não sei onde vim parar
Vejo o mundo tão escuro
Como se fosse um grande muro
Que não consigo saltar.
Chegaste tão de mansinho
Invadiste o meu cantinho
Vieste apenas para roubar.
Entraste  no meu coração
Causando esta depressão
E agora vivo a lutar
Vivemos o dia a dia
Sem sentirmos alegria
E não sabemos explicar
Sei que tenho o teu amor
Nas maiores horas de dor
Sempre pronta para ajudar
Perdoa se não consigo
Ser mais aberto contigo
Mas não sei o que falar
Apenas posso prometer
Que em breve vou vencer
E não deixar de te amar.

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

DO LIVRO "POEMAS DO QUIRIMBO70"

RECORDAÇÕES

Recordo o embondeiro
A mulemba, o cafeeiro
E a cidade da Gabela
O posto do Quirimbo
Envoltos pelo cacimbo
Alvas como uma donzela
Vejo as mulheres de tanga
Que moravam na Aricanga
Caminhando com cautela
Na cabeça as bicuatas
Penduradas vão as latas
E o cãozito atrás delas
Como é bom recordar
Olhos fechados sonhar
Percorrer essa ruela
Com a chuva lamacenta
Com o sol poeirenta
Mesmo assim gostava dela
Com a minha sacola
Dirigia-me à escola
Da nossa linda Gabela.

Sábado, 1 de Janeiro de 2011

EXCERTO DO LIVRO "FOI NA BAIXA DO CASSANGE" (a editar)

Creio que a primeira peça de roupa que usei foi aos sete anos quando o meu pai tentou matricular-me na escola do Posto de Milando, uma pequena povoação que ficava a uns nove quilómetros da nossa casa, mas não fui aceite porque não estava registado em lado nenhum, isto é, legalmente eu não existia!
- Sem estar registado não pode frequentar a escola. – disseram ao meu pai.
Como o registo só podia ser feito em Malange e o meu pai não tinha dinheiro para a viagem, não fui para a escola, mas fiquei com o calção e a camisa que me tinham comprado, as minhas duas primeiras peças de roupa, se usei outras foi ainda muito pequeno, pois sempre me lembro de andar nu até aí.
Não sei se fiquei triste ou contente pois a escola ainda ficava a uma distancia considerável para um miudo de sete anos.
Viviamos perto da povoação de Quivota e por isso era suposto fazer diárimente mais de dezoito quilómetros a pé. Também se iriam acabar os dias calmos e descontraidos que eu passava com os outros garotos da libata a tomar banho no pequeno rio que passava um pouco abaixo da nossa casa ou a caçar  passarinhos com as fisgas feitas por nós. Escolhiamos cuidadosamente um ramo duma árvore para servir de forquilha e depois tentavamos a sorte na oficina dos carros da Cotonang para nos darem um pouco de uma camara de ar quando estas se tornavam obsoletas para os carros, que cortavamos com extremo cuidado para servirem de elásticos. 

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

EXCERTO DO LIVRO "AS MEMÓRIAS DO BLACK" (a editar)

O que aprendi mais depressa, foi o meu nome. Quando o ouvi pelas primeiras vezes, não o diferenciava de tudo o mais que tentavam dizer-me e eu não compreendia, mas com o passar dos dias, entendi que sempre que repetiam essa palavra, esperavam que eu aparecesse, quer para comer, quer mesmo para brincar e receber umas carícias. 
Era isso, tinham-me posto o nome de Black e seria por esse chamamento que eu responderia todos os dias da minha vida.
Num dos passeios habituais que fazia com o Sérgio e como nos demoramos mais naquele dia, acabei por fazer o meu xixi encostado a uma parede. Ele olhou para mim a sorrir, fez-me muitas festas e até me pegou ao colo. Seria o que eu estava a pensar?
Para ter a certeza e um pouco mais à frente, procurei um sítio onde pudesse fazer a outra coisa, aquela que normalmente cheira muito mal e fiz. 
Novamente ele se abaixou para mim como anteriormente e fez-me aquelas cócegas no pescoço que eu gostava tanto. Agora tinha a certeza, era na rua que eu devia fazer!
Todo a família ficou contente comigo e embora eu dissesse no meu idioma, creio que eles não entenderam, assim como eu também não tinha entendido as suas palavras.
- Podem crer que agora entendi. Se isso vos dá prazer, é assim que farei daqui para a frente; necessidades só mesmo na rua!
Foi bom para todos, especialmente para mim, pois deixei de apanhar e nunca mais me esfregaram o focinho no meu xixi.

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

DO LIVRO "POEMAS DO QUIRIMBO70"

ONDE ESTÁS

No meio da noite escura
Continuei à procura
Mas nunca te encontrei
Passou-se toda uma vida
Chorada e muito sofrida
Tantas vezes que chorei.
Os anos foram passando
As saudades aumentando
Tantos tombos que eu dei
Pelo mundo andei sozinho
Procurando um carinho
Tão má sorte eu herdei.
Foram anos na procura
Que me levaram à loucura
Nem um segundo descansei
Mas morreu a esperança
Ficou apenas a lembrança
Do quanto te amei.

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

DO LIVRO "POEMAS DO QUIRIMBO70"

AS FLORES

São tão belas e tão delicadas
De tantas formas e tantas cores
Azuis, amarelas ou encarnadas
Em toda a parte brotam as flores

Flores vermelhas para os namorados
Símbolo de apego e terno fervor
Ofertas constantes dos apaixonados
Demonstração viva do seu amor

Flores amarelas, gosto refinado
Agradecimento ou lembrança de amigo
Trazem recordações ou namoro acabado
Tantas mensagens que levam consigo

Flores brancas são símbolo de paz
Também de pureza e de castidade
Selam promessas que o casal faz
Testemunhas fieis de felicidade

São tão frágeis mas tão Formosas
Trazem alegria a qualquer lar
Quem é que nunca recebeu rosas
Ou sentiu prazer em as ofertar.

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

PASSAGEM DO LIVRO "O FILHO DA PRETA"

Foi quando se aproximaram da Quibala que começaram
a ver os primeiros corpos caídos à beira da estrada. Era evidente
que a guerra já havia chegado ali. Foi também nesta
altura que dois aviões da Força Aérea Portuguesa passaram
rente à coluna e depois começaram a voar em círculo.
As coisas não deveriam estar boas por ali, mas passaram
sem problemas e, para além dos cadáveres espalhados, não
viram mais ninguém. Adivinhava-se que os litigantes estivessem
entrincheirados, a vê-los passar.
Haviam percorrido setenta e cinco quilómetros e ainda
faltavam outros tantos até à cidade de Santa Comba-Cela,
onde se encontrava o Rogério. Foi já ao fim da tarde que chegaram
e lá estava ele a aguardá-los. Fizeram uma paragem
de algumas horas, o que permitiu ao filho arrumar as suas
coisas e juntar-se aos pais no autocarro. Tinha começado a
debandada por todas as cidades de Angola.
– Como é que estás, meu filho?
– Eu estou bem. E vocês? Por aqui ainda não começou,
mas a todo o momento pode rebentar. Como é que vocês
conseguiram chegar à Gabela?
– O senhor Monteiro foi a todas as dependências buscar
os empregados.
– Estava muito preocupado convosco. Ainda bem que
tudo correu para o melhor!
Retomaram a marcha e já era bastante tarde quando por
fim chegaram ao destino, a Feira Internacional de Nova Lisboa,
onde se encontrava já muita gente de outras partes do
norte de Angola.
As senhoras da Cruz Vermelha receberam-nos com uma
sopa quente, algo que já não comiam pelo menos havia dois.......

Sábado, 27 de Novembro de 2010

DO LIVRO DE "POEMAS DO QUIRIMBO 70"

MARUFO

Quero beber marufo
Aquele suco da palmeira
Tão docinho quando sai
Depois causa bebedeira
Mas eu quero marufo
E saciar a minha sede
Mesmo que fique piruco
Também faz esquecer
Toda a minha canseira.
Depois eu vou dormir
Ou fazer de maluco
Deixem eu dançar
Saltar até pular
Pois eu bebi marufo
A tonga é tão dura
Todo o dia a capinar
O patrão está atrás
Não pode mangonhar.
Eu quero ficar piruco
Por favor vai buscar
Quero beber esse suco
Eu quero o marufo
Para não mais chorar.

Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIDA" (A EDITAR)

O ORFÃO

Como todos os demais estava sentado no chão,
As cadeiras disponiveis daquele improvisado hospital
Feito de lona e plantado no meio do nada,
Com parcos recursos, mas muito boa vontade.
Tantas pessoas para cuidar,
Sintomas diversos mas um mal comum:
A fome!
Ao invés do ventre inchado e membros mirrados,
Aquele garoto na casa dos seis anos, parecia bem nutrido
Ao contrário da sua jovem mãe que acabara de falecer.
Era o único familiar que acompanhara a defunta
E agora procurava se havia alguém a quem pudesse comunicar o ocorrido.
Quando me abeirei dele e tentei passar-lhe a mão pela cabeça,
Os seus olhos cravaram-se no bolso da minha bata
E parecia que raios chispavam deles.
Essa caneta é do pai! Disse com raiva olhando-me nos olhos!
Tirei-a suavemente e pousei-a nas suas pequeninas mãos,
Bastando um olhar rápido para se desfazer em mil desculpas e muitas lágrimas.
A parte de baixo era preta, enquanto a do pai era toda prateada,
Informou-me ele.
Uma simples caneta Parker,
Mas o suficiente para um soldado o matar quando se recusou a entregá-la.
O garoto estava só!
Tantos relatos de miséria que já ouvira,
Mas não pude segurar lágrimas teimosas que me escorreram pela  face
Ao ouvir o relato daquela criança.
O que fazer?
Quando tentei oferecer-lhe a caneta que ainda segurava nas suas mãos pequeninas,
Recusou firmemente;
Não queria morrer como o pai!

Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIDA" (A EDITAR)

O MEU DIA


Hoje não vou dormir com fome,
Não entendo bem, mas dizem que é o meu dia.
Como não entendo,
Não deixo de me perguntar porque só tenho um dia,
Quando todos os dias preciso de comer
E simplesmente nada tenho para meter à boca.
Costumo levantar-me com fome
E deitar-me com fome,
Mas hoje, porque é o meu dia,
Estou deitada como habitualmente no chão duro de terra batida,
E apesar do sono tento não dormir,
Hoje não tenho fome e como é bom sentir esta sensação tão aconchegante
E usufruir ao máximo todo o meu dia,
Antes que chegue o amahã e a fome continue.
Porque eu só tenho um dia?
Hoje até me deram uma camisola branca com letras estampadas na frente e atrás;
Não sei o que dizem, pois nunca fui à escola.
Tenho quase quinze anos, mas o meu corpo mirrado faz-me parecer uma menina de nove anos.
Nem sequer tenho mamas como as raparigas da minha idade,
Mas se eu pudesse comer todos os dias como os demais,
Penso que ainda seria uma linda mulher e não teria esta cara esqueletica,
Donde apenas sobressaiem os meus enormes olhos.
Como acontece com todas as meninas e menionos que vivem neste lugar,
Sei que em breve morrerei,
Porque afinal só temos um dia para se lembrarem de nós.
Como tudo seria diferente se tivessemos mais dias
E se apenas se lembrassem que precisamos de comer como todos os demais,
Ainda que fosse apenas um prato de arroz igual ao que me deram ao almoço.
“Hoje” vou dormir sem fome,
Apesar de apenas ter comido uma refeição,
Porque alguém se lembrou que hoje era o meu dia!

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

POEMA DO LIVRO "UM DIA UMA VIDA" (a editar)

A NOSSA VIDA



Gosto de sentir o sabor da noitinha,
Sentir no meu rosto aquela brisa fresquinha
E ver as estrelas lá no alto a brilhar.
Perder-me nas ruelas mal iluminadas,
Passar pelas portas e janelas trancadas,
Deixar o pensamento também vaguear.
Subir ao castelo e contemplar a cidade,
Respirar bem fundo, matar a ansiedade,
Olhando o horizonte e começar a sonhar!
Avisto as Docas bem iluminadas,
Adivinho as gentes nas suas esplanadas,
Saboreando o fresco mas não o luar.
Vive-se num stress e sempre a correr,
Sempre apressados mesmo sem querer,
Quando o que desejamos é só passear!
Saboreia a vida e olha ao teu redor,
Por vezes esquecemos o que tem de melhor,
E quando nos damos conta, está a findar.

Sábado, 13 de Novembro de 2010

SINOPSE DO LIVRO "A MÃE QUE NÃO ME QUIS" (A SAIR BREVEMENTE)

O abandono dum filho traz sempre sequelas para ambos os lados, mas quando esse acto é praticado por puro comodismo, o perdão torna-se demasiado difícil.
Em “A MÃE QUE NÃO ME QUIS” assistimos ao abandono de dois filhos em tenra idade por uma mãe que se envolveu com os Movimentos de Libertação numa das ex-colónias portuguesas e simplesmente deixou os filhos entregues a um pai que se viu forçado a retornar a Portugal, um país que havia deixado há mais de trinta anos e onde já não tinha raízes.
Sem recursos, desempregado, viu-se forçado a entregá-las ao cuidado de uma Instituação Social. Assistimos a abusos continuados, humilhações, a entrada para o mundo da droga, pois quando a própria mãe os rejeita, torna-se difícil encontrar e dar amor num mundo que se aproveita sempre dos mais fracos e vulveráveis, dando-se por fim o  reencontro tardio, de uma mãe que no fundo nunca esqueceu os seus filhos.
Seria o perdão ainda possível?

Sábado, 6 de Novembro de 2010

DO LIVRO DE "POEMAS DO QUIRIMBO 70"

A TONGA

As palmeiras ondeando
Os passarinhos cantando
No fresco entardecer
Os homens a regressar
Fim dum dia a capinar
Que só dá para comer.
Caminha pela savana
Na mão leva a catana
E a moringa para beber
Regressa à sua libata
Entra na sua cubata
Sítio que o viu crescer
Depois da sua canseira
Estende a sua esteira
E procura adormecer
Dorme deitado no chão
Nunca teve um colchão
Outra forma de viver
E assim vai continuar
O tempo a passar
Descansar, só ao morrer.

Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

DO LIVRO DE POEMAS "UM DIA UMA VIA" (A EDITAR)

A PARTIDA


 Quando se contam os dias,
Tudo aquilo que querias,
Já não tem qualquer valor.
Tantas lutas e canseiras
Tantos erros e asneiras,
Tantas mágoas... tanta dor.
Quando se tem pouco tempo,
Vive-se cada momento,
Com muito mais ardor..
Lá do alto do Castelo,
Tudo parece mais belo,
Vejo tudo com mais cor.
Quando se está de partida,
Dá-se mais valor à vida,
Vive-se com mais amor.