PRETO NÃO VAI NA CABINE
- Lindinho, um dia quando você fores grande, então tu vais entender.
Íamos os dois na parte de trás do jeep do senhor Chefe de Posto que era apenas de três lugares. Como era habitual na época das chuvas, de repente, o sol escondeu-se e logo a seguir começaram a cair as tais gotas grossas de chuva que em breve se tornaram num forte aguaceiro, fazendo correr a água pelos regatos à beira da estrada.
O meu pai tirou o seu capacete “tipo colonial” e colocou-o na minha cabeça, ao mesmo tempo que se inclinava sobre mim, na vã tentativa de me proteger da chuva, enquanto ele com a sua mão teimava em sacudir a água que lhe escorria pelo queixo.
Olhava desalentado para mim todo encharcado!
Tinhamos saído de manhã bem cedo e ansiava chegar a casa para os meus colegas verem a minha roupa nova e agora...
- Pai, porque não vamos lá para dentro? - e apontava para a cabine do jeep.
- Não pode, nosso lugar é aqui. – respondeu o meu pai.
- Mas porquê pai, lá cabe nós dois, só tem o senhor Chefe.
- Chuva não mata. - Voltou ele a responder
- Mas porquê pai?
O meu pai olhou para mim, passou-me a mão pela cara tentando limpá-la da chuva e olhando para longe, respondeu devagar:
- Quando você fores grande, tu vais entender.
Fiquei um pouco desconcertado com a resposta do meu pai, pois continuava sem entender porque íamos ali todos molhados, quando havia lugar para nós na cabine do jeep.
Bem, o meu pai tinha razão e não precisei de muitos anos para realmente entender o que lhe custava tanto a dizer.
Entender, eu entendi, mas sinceramente não gostei!
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