Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

EXTRACTO DO LIVRO "DA SANZALA A DIPLOMATA"


A MUDANÇA


Poderia passar milhares de vezes pelo homem que acabava de entrar no meu gabinete que jamais reconheceria nele o personagem que muitos anos atrás me sovou, apenas porque não quis engraxar-lhe os sapatos de “borla”.
Alto, meio encurvado, cabelo completamente branco, velho, sim muito velho para os seus cinquenta e oito ou cinquenta e nove anos.
Quando se sentou de frente para mim do outro lado da secretária, notei também que o rosto apresentava rugas profundas, dando-lhe também esse ar de mais idade do que na verdade tinha.
Como o esperava, sabia como devia de agir e assim jeitosamente pu-lo a falar de Angola, aliás a razão da sua visita ali.
Com voz pausada e agradável notei que vivia cada palavra que pronunciava, como se isso fosse a única razão que o impelia a viver.
Estava só na vida já alguns anos; falou durante quase meia hora e, embora tivesse uma agenda apertadíssima, esqueci tudo e bebia também cada palavra que saía daqueles lábios.
Olhava para mim, mas nem por um segundo pensou ou reconheceu aquele que tinha agredido um dia. Admitiu erros do passado, erros que todos haviam cometido; como seria diferente se naquele tempo todos pudessem ter o pensamento e a maneira de pensar de agora! Teria sido uma Angola linda, uma Angola multirracial e multicultural, mas digam o que disserem, - dizia ele, - naquele tempo, só porque alguém nascera “diferente”, já podia tratar os outros como se fossem escravos. Mas agora o povo “retornado”também era diferente dos outros, porquê? Não foi apenas a terra em si que os moldou, mas quer admitissem quer não, também eles aprenderam muito com os “angolanos”.
Convenci-me da sua sinceridade quando ele citou um exemplo disso: “
- Vi mais de uma vez, não importa se fosse homem, mulher ou criança, comprarem um papo-seco (carcaça) e depois dividiam-no por quem estivesse presente, sobrando na maioria das vezes apenas uma mastiga que metiam à boca duma só vez”.
- Ainda se lembra disso? – perguntei só para dizer alguma coisa.
- Contra mim falo, - continuava ele, - tarde demais nos apercebemos do bem que tínhamos e do povo amistoso e afável com quem convivíamos.
Será que me tinha reconhecido? – interroguei-me mentalmente  quando o ouvi falar assim.
Mas não! A verdade é que este homem tinha mudado, já não era o mesmo de quem guardava tão má memória.
As mudanças da vida, as dificuldades sentidas e por vezes também a idade ajudam-nos a mudar e ele tinha mudado.
 Olhei para ele, sorri com alguma nostalgia, rabisquei o documento que estava em cima da secretária e apenas disse:
- Aqui tem senhor João, faça boa viagem.
- Muito obrigado senhor..... – e saiu da mesma forma que havia entrado!

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