A MUDANÇA
Poderia passar milhares de vezes pelo homem que acabava
de entrar no meu gabinete que jamais reconheceria nele o personagem que muitos
anos atrás me sovou, apenas porque não quis engraxar-lhe os sapatos de “borla”.
Alto, meio encurvado, cabelo completamente branco, velho,
sim muito velho para os seus cinquenta e oito ou cinquenta e nove anos.
Quando se sentou de frente para mim do outro lado da
secretária, notei também que o rosto apresentava rugas profundas, dando-lhe
também esse ar de mais idade do que na verdade tinha.
Como o esperava, sabia como devia de agir e assim
jeitosamente pu-lo a falar de Angola, aliás a razão da sua visita ali.
Com voz pausada e agradável notei que vivia cada palavra
que pronunciava, como se isso fosse a única razão que o impelia a viver.
Estava só na vida já alguns anos; falou durante quase
meia hora e, embora tivesse uma agenda apertadíssima, esqueci tudo e bebia
também cada palavra que saía daqueles lábios.
Olhava para mim, mas nem por um segundo pensou ou
reconheceu aquele que tinha agredido um dia. Admitiu erros do passado, erros
que todos haviam cometido; como seria diferente se naquele tempo todos pudessem
ter o pensamento e a maneira de pensar de agora! Teria sido uma Angola linda,
uma Angola multirracial e multicultural, mas digam o que disserem, - dizia ele,
- naquele tempo, só porque alguém nascera “diferente”, já podia tratar os
outros como se fossem escravos. Mas agora o povo “retornado”também era
diferente dos outros, porquê? Não foi apenas a terra em si que os moldou, mas
quer admitissem quer não, também eles aprenderam muito com os “angolanos”.
Convenci-me da sua sinceridade quando ele citou um
exemplo disso: “
- Vi mais de uma vez, não importa se fosse homem, mulher
ou criança, comprarem um papo-seco (carcaça) e depois dividiam-no por quem
estivesse presente, sobrando na maioria das vezes apenas uma mastiga que metiam
à boca duma só vez”.
- Ainda se lembra disso? – perguntei só para dizer alguma
coisa.
- Contra mim falo, - continuava ele, - tarde demais nos
apercebemos do bem que tínhamos e do povo amistoso e afável com quem convivíamos.
Será que me tinha reconhecido? – interroguei-me
mentalmente quando o ouvi falar assim.
Mas não! A verdade é que este homem tinha mudado, já não
era o mesmo de quem guardava tão má memória.
As mudanças da vida, as dificuldades sentidas e por vezes
também a idade ajudam-nos a mudar e ele tinha mudado.
Olhei para ele,
sorri com alguma nostalgia, rabisquei o documento que estava em cima da
secretária e apenas disse:
- Aqui tem senhor João, faça boa viagem.
- Muito obrigado senhor..... – e saiu da mesma forma que
havia entrado!
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